Aprendizagem Ativa: a história é outra

Atualizado: Set 12


Metodologias ativas são as abordagens de ensino em que o aluno participa ativamente do processo de aprendizagem. É chamada, também, de aprendizagem ativa. Daí começam as dúvidas sobre como seria possível alguém aprender algo se não for dessa maneira. Por isso iniciamos essa rápida dissertação para pontuar um pouco da história dessas abordagens didáticas (ditas) tão atuais e importantes para o século XXI.


Um pouco de história


É um erro quem sugere que as metodologias ativas de aprendizagem são invenções modernas. Elas sempre existiram, basta relembrar que o modelo existente até o século XII era a relação mestre-discípulo e, nessa abordagem, o mestre transmitia seu conhecimento interagindo diretamente com seu aluno em uma relação quase paternal. O conceito de aprender estava relacionado com um ofício, então o mestre era alguém que tinha a maestria em um ofício e o discípulo era aquele que pagava pelo aprendizado com seu trabalho, chegando quase ao nível da escravidão. Nesse método, o aprendiz ou discípulo aprendia fazendo e, também, aprendia com seus próprios erros – sob a orientação do seu mestre. E, não era incomum que o mestre surrasse o aluno que tinha dificuldade em aprender, podendo até mesmo manda-lo embora por ser incapaz de aprender o ofício.


A partir do século XII os ofícios foram fortemente integrados com os sistemas feudais que, dessa forma, se apropriaram dos mestres por serem eles que detinham conhecimento do principal negócio da época: a guerra. Por esse motivo, a fundação da Universidade de Bologna (a primeira do mundo) foi importante. Nela, os noviços ou calouros eram admitidos e o seu primeiro ato era queimar todas as suas roupas e raspar todos os pelos. Não se tratava do nosso trote moderno, mas tem uma relação direta com aquela época. O motivo era o de impedir que pestes e insetos infestassem o campus da universidade. Por sua vez, a universidade pertencia à cidade que pertencia a um senhor feudal. Há inúmeras situações em que a tentativa de fuga de um mestre (ou professor, na linguagem moderna) seria punida com a morte porque ele detinha os segredos das artes e ofícios ligados à guerra e a defesa da cidade estaria comprometida. Um dos casos mais extremos é o criador dos vidros especiais para lunetas que ao estar prestes a morrer ditou os seus segredos ao próximo detentor dessa arte altamente estratégica em outra universidade.


Dito isso, aconteceu algo com a criação das universidades que não existia anteriormente: os alunos deixaram de ser os escravos do mestre e passaram a pertencer à universidade, assim como eles. Por esse motivo os mestres passaram a ter graduações – deixaram de ser únicos – e alguns eram superiores a outros. Daí para frente, os doutores não interagiam com os aprendizes – quando isso era necessário, eles falavam em púlpitos, todos ouviam e ninguém perguntava ou retrucava, afinal eles eram os doutores. Os mestres é que ensinavam até conseguirem galgar para a posição de doutores. E, assim nasceram as metodologias passivas, que hoje são chamadas de tradicionais. Assim, as metodologias ativas eram anteriores e o tradicionalismo nasceu somente com as universidades que criou a aula que é apresentada ao aluno e ele foi transformado em alguém que deve ouvir calado e sair calado.


O renascimento que passamos nos tempos “modernos” é, em verdade, uma recuperação do período anterior ao acadêmico, não uma invenção contemporânea. O melhor exemplo que dispomos da antiguidade encontra-se exatamente na bíblia considerada no seu relato histórico, onde se nota que a relação entre o mestre (Jesus) e seus discípulos não era de uma aula tradicional, mas de uma exposição simultânea acompanhada de conversas e debates sobre os temas. Mesmo nas pregações públicas, com muitas pessoas, a exposição era passível de conversas e discussões, já que não se tratava de uma aula que estava longe de ser no modo (dito) tradicional.


Mas, faltou a justificativa do porquê o modo tradicional de ensino se consolidou dessa maneira nas universidades. Com o início da revolução industrial, no final do século XIX, os novos negócios já não estavam direcionados para a guerra, mas para a produção. E, a sociedade tinha necessidade de especialistas em ofícios ligados às novas máquinas. Por isso, as universidades se desenvolveram para oferecer formações mais específicas (engenharias, por exemplo). Sendo assim, passaram de formadores de ofícios profissionais tradicionais para os novos ofícios também chamados, inicialmente, de artes industriais. Não se formavam mais arquitetos que eram pintores, escultores, mecânicos, e mais uma infinidade de ofícios (veja o caso de Leonardo da Vinci, que tinha formação em dezenas de artes de ofícios). A universidade atendia a demanda da sociedade e, por isso, não havia muito o que discutir sobre o que deveria ser aprendido e nem que fossem realmente profissionais para criar coisas novas, eram formados para resolver problemas (mesmo que com novas soluções) e fazer as coisas funcionarem. Os mestres passaram a não dar chance para discussão e, simplesmente, transmitiam o conhecimento como se os alunos fossem repositórios vazios prontos para receber o conhecimento. As aulas expositivas foram a maneira de transferir conhecimento puro e simples. O aprender fazendo não admitia mais o aprender com os próprios erros, simplesmente não havia mais espaço para a descoberta pelo aluno de qual maneira seguir, ele tinha que obedecer ao mestre, sem discussão.


O que são metodologias ativas


Após esse raciocínio bastante lógico e com base histórica (mesmo que questionável) podemos iniciar a confecção de uma definição de metodologias ativas. E, para isso iremos recorrer a um estudioso da gamificação, Huizinga, que na metade do século XX publicou um livro que foi marco, o Homo Ludens. Nesse clássico da Teoria das Simulações e Jogos, foi provado que os animais, assim como os homens, aprendem brincando e por meio de simulações e jogos. Os pequenos leões brincam de luta e já nessa fase estabelecem entre si a hierarquia que será respeitada por toda sua vida. É uma forma de aprendizado que é anterior aos humanos, portanto é instintiva. Não se observa, em nenhum animal a transferência de conhecimento necessário para a sobrevivência por outro meio que não seja a imitação ou os jogos, a aula expositiva é invenção humana e recente.




Mas, a imitação e jogos não são exatamente o modelo em que o aprendiz tem o comando do aprendizado? Os animais não são comandados pelos seus genitores para aprender, eles fazem porque querem: imitam porque querem, notam que não deu certo e tentam novamente, aprendem e gravam o que deu certo; brincam de luta porque querem, apanham e batem porque querem, aprendem e gravam o que deu certo. Afinal, se isso não é aprendizagem ativa, o que é? Seria ver um bando de macacos assistindo um macaco velho como quebrar uma noz calados e sem praticar?

Então, qualquer definição de metodologias ativas que esteja fora do contexto em que o aprendiz é o regulador do seu processo de aprendizagem seria uma tentativa fracassada por definição, ou seja, não estaria nem errada.


Aprendizagem colaborativa


Adicionalmente, um dos maiores erros que é possível notar nas definições de metodologias ativas é que são técnicas colaborativas! São duas dimensões completamente diferentes, embora seja impossível imaginar uma aula expositiva acontecendo de forma colaborativa. Ou seja, em uma aula do modelo de aprendizagem passiva (contrário da ativa), se o aluno não pode interagir nem com seus pensamentos, o que dirá de ter alguma atividade interpessoal para construir ou consolidar o conhecimento?


Por outro lado, se nessa aprendizagem - dita passiva - não é possível ter a aprendizagem colaborativa, na aprendizagem ativa ocorre a possibilidade de isso ser usado como estratégia didática.


Para exemplificar, se pedimos aos alunos que arranquem uma folha do seu caderno e que escrevam uma pergunta sobre a aula recém encerrada (independente do método dessa aula), isso oferece a oportunidade de que ele mostre algo de si mesmo. É, talvez, o exemplo mais pobre de metodologia ativa, mas é muito antigo (já se fazia isso quando fiz meu primário, nos anos 1960). Não é colaborativa, não há interação entre os alunos. E, se o professor puder pinçar os pontos de questionamentos, poderá indicar os alunos que fizeram as perguntas mais pertinentes – dando as mesmas consequências positivas das metodologias ativas, apesar de sua aula (talvez) ter sido apenas expositiva. Hoje, essa técnica é conhecida como Minute Paper, mas no meu tempo de primário era chamada por “de novo professora”, ou “ai, não...”, porque isso nos obrigava a pensar.


Então, ao se afirmar que “metodologias ativas são estratégias colaborativas”, houve uma inversão já que, na realidade, as estratégias colaborativas é que são metodologias ativas, mas nem todas metodologias ativas são estratégias colaborativas. E, mais uma vez, o uso incorreto dessa "teoria dos conjuntos" leva algumas dissertações e teses a partirem de pressupostos completamente estranhos e, diga-se de passagem, as torna passíveis de profundos questionamentos de suas conclusões.


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